quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Capítulo Dois


Está muito calor hoje. O suor desce pela testa, escorrendo pelo pescoço. Busquei a refrescância no banho, na janela aberta e no ventilador ligado... Nada! O calor me sufocando e a tentativa de pensamento parece um esforço sobrehumano para continuar a escrever.

Meu quarto não é muito amplo, mas tem mais mobília do que necessário. Ainda me esbarro nas coisas e olho para o escaninho com os livros organizados e as quinquilharias inúteis que coleciono como as palavras que tento encontrar quando divago o olhar pelos meus livros fechados. Guardo o pieguismo tolo da minha adolescência, que venho me livrando aos poucos, assim como das lembranças que não quero mais ter. Ainda me livro das coisas inúteis definitivamente. Só não me livro dos livros por ter esperanças de ainda encontrar as palavras perdidas. Pensando bem, se elas são perdidas é porque algum dia as tive comigo... Não, nunca as tive de verdade. Escrever pode ser embuste?

Minha cama é antiga e confortável. Foi entalhada à mão, vinda de um tempo onde as mãos de quem a entalhou jamais se preocupou que um dia teria que preservar a natureza. Me privo ao direito de só comprar lençóis de percal cem por cento algodão. Os criados-mudos também são antigos e contrastam com as luminárias coloridas. Meu computador no canto, a televisão e o guarda-roupa isolado como se não fizesse parte da casa, da minha vida. O cabide no canto seria para colocar chapéus, mas tem tanta coisa pendurada que não são raras as vezes que ele tomba para frente de tanto peso. Bolsas, cintos, chapéus, bijuterias, casaco, roupão, máquina fotográfica... Tudo lá.

É aqui que passo meus momentos trabalhando em silêncio. Outras vezes fico olhando para o teto ou pela janela com grades, tentando ver o céu escuro e as luzes piscando ao longe no morro cheio de casas que cerca o meu bairro. Noutras, me levanto para ver entre as barras de ferro as coisas que acontecem na rua. À esquerda o morro, com seus casebres lá no alto, as luzes amarelas brilhando no escuro. Olho para baixo e vejo uma grande escola e quando ergo a cabeça vejo a Pedra dos Dois Olhos que vara o céu, impondo sua majestade fálica e bela. Desde que observei a pedra pela primeira vez, achei-a parecida com uma enorme glande. Ela ali, isolada, magnânima e imponente como um caralho enorme incitando os desejos e absorvendo o calor dos dias.

Procuro elaborar minhas ideias para colocá-las no papel. Não consigo sofisticar meus sentimentos a ponto de elaborar pensamentos filosofados, escritos de maneira difícil ou culta que possa me fazer parecer inteligente. Penso de maneira coesa. Sinto o que sinto. Por exemplo, não saberia dizer outra coisa a respeito da Pedra dos Dois Olhos se não exatamente o dito, o pensado quando a vejo exatamente como a um enorme caralho. Talvez fosse mais poético dizer um enorme falo, um enorme pênis, um pênisão (?). Caralho é caralho, tem força. Assim como dizer buceta. Que mal há em se chamar caralho de caralho e buceta de buceta que até o dicionário do Word grifa de vermelho apontando-o como erro ou palavra descabida? Bu-ce-ta! Ca-ra-lho!

Assim pensei em não romantizar mais as coisas sentidas por outros amores depois que a perdi. Na verdade, sem delongas, nunca a tive. Foi tudo uma ilusão e eu fico batendo na mesma tecla como aquelas mulheres que tinham amantes e iam ao salão da minha tia para se lamentarem pelos seus homens que tinham esposas. Pau é pau, xereca é xereca. Pronto, esse assunto já até me encheu. E eu nem sei o porquê de ficar me delongando nessa patifaria, nesse monte de palavrão. Ah sim, estou escrevendo no meu diário desconexo, descontínuo e infundado. Não tenho que ficar procurando palavras para agradar o leitor.

É como se todos os outros amores que já tive na vida não passassem de redundância, viciosidades, tapa-buracos. Assim como esse monte de palavra que sai desembolada da minha caneta. Eu escrevo a mão antes de digitar no computador. Meu diário não pega vírus. Alguns amores, fiz até questão de desenvolver um sentimento de amor, mas foi passageiro. Meus sentimentos são monogâmicos e por mais que tentasse não seria capaz de me entregar completamente à patifaria que eu tanto queria. E eu adoro patifarias!

Resolvi que era hora de me apaixonar. Tá bom! Isso não se resolve da mesma forma que não posso elaborar meus pensamentos. Se eu os filosofasse da mesma forma quando decidir me apaixonar, posso afirmar que são filosofias de boteco.

Continuando: inútil tentar ter um pouco de solidão e então eu decidi me apaixonar. Era tanta paixão acumulada nas tentativas inúteis que sobrou sentimento sem utilização, ocioso na mediocridade da impossibilidade proposital de não ser capaz de amar de novo.

O tempo passou desde o primeiro capítulo e eu não moro mais perto do mar. Ainda assim, posso imaginar as ondas se quebrando na areia das noites chuvosas as quais passo pensando em mais nada que não sejam as minhas vontades. A diferença é que me tornei obsessiva nos meus pensamentos.

Engraçado, toda vez que escrevo fico imaginando o pensamento dos outros ao ler tudo. Será que esperam alguma coisa dos meus textos?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Capítulo um




O Livro da Tormenta

Numa sugestividade dos meus sentimentos, descrevo nos textos para o Livro da Tormenta, o findado amor de um passado distante.
É um título provisório ainda porque não consigo pensar em outro nome senão neste. Esse amor foi tormenta e redenção, assim como minha vida se perde em devaneios nos vagos momentos que tenho os pensamentos livres.
Os textos não são sobre o amor findado apenas. Eu conto minha vida em capítulos porque não dato os relatos nas páginas do meu diário pessoal. Talvez a atemporalidade das minhas palavras me deem a impressão do tempo parado... Talvez...
Eu estou editando meu diário.


Capítulo Um

O relógio da cozinha marcava meio-dia e trinta e quatro e não me lembrava se ele tinha parado à meia-noite e trinta e quatro. Estava deitada no quarto, como se pudesse ver o ponteiro dos segundos se movendo rapidamente, como se isso fosse capaz de fazer o tempo passar mais depressa. E meus olhos se entreabriram.

O celular tocou uma vez. Atendi com a voz mole de sono interrompido que não era profundo a ponto de trazer o descanso tão necessário. Abri as cortinas do quarto com os olhos semicerrados pelo excesso de luz do sol da manhã que entrava pela janela ouvindo a voz do outro lado da linha sussurrando bom dia.

Era como um ritual que me tirava da morte todas as manhãs para começar mais um dia. E quando a noite chegava, o telefone tocava e eu tinha a certeza de poder morrer depois de ouvir boa noite.

Escrevia longas cartas despejando as saudades nas folhas brancas, tingidas por sentimentos que brotavam da caneta, com letras vacilantes, outras vezes firmes e bem desenhadas como o meu amor por ela.

Silêncio das madrugadas insones, ouvindo a chuva batendo no telhado, as ondas do mar se quebrando ao longe ou vozes distantes e incompreensíveis de estranhos que povoavam meus pensamentos. Na vida espartana levada em casa, não tinha o espaço dos luxos para as oportunidades. Então descrevi cada canto comparando com meus sentimentos, minha vida e sentia a riqueza cobrir meus anseios. Sem dúvida, minha vida tinha sentido com ela e para ela sussurrei entre gemidos, a pureza de algo que não sabia existir em mim.

- Crie um diálogo.

- Como? Não há o que dizer.

- Responda aos seus questionamentos primeiro.

- Não saberia.

- Por que ela te deixou?

- Meu amor por ela me adoeceu. Acho. Não. Ela sente amor por outra pessoa e eu não caibo mais nos sentimentos dela.

- Mas você disse que ela te amava.

- Eu quis acreditar no amor dela como salvação para os meus sentimentos perdidos.

- Você criou expectativas.

- Não, o amor quem criou.

- É a mesma coisa. O amor é você.

- Não, eu sou a decepção.

- Ela te enganou?

- De maneira nenhuma.

- Então, o que tanto te magoa?

- Eu ter me enganado, ter querido acreditar que era real. Eu só queria ter a certeza se algum dia ela me amou.

- Como faria isso? Não são certezas que se podem ter.

- Ainda não sei, mas eu preciso descobrir.

- Isso é obsessão.

- Não, é amor desprezado, frustração, credulidade, ingenuidade... Chame como achar melhor.

- Mas se você disse que ela não te enganou...

- Sim, eu disse.

- Então...

- Só preciso saber se foi real.

- Esqueça isso! Já se passou tanto tempo.

- Parece que foi ontem, mas eu mudei tanto...

- Esqueça!

- Não posso!

- O que você precisa saber?

- Eu já disse, preciso descobrir se um dia ela me amou.

- Você ainda a ama?

- ... – Silêncio - ... – Silêncio – Não. Não como antes.

- Mas ainda ama...

- Tá, eu amo, mas o que isso importa agora? Não faz mais diferença porque me curei dela, reaprendi o amor próprio, sufoquei meus sentimentos no meio da dor enorme desde o dia que me perdi dela, que a vi pela última vez.

- Isso faz diferença. Você quer as respostas para se convencer de algo que nunca fez sentido: o amor dela.

- Nada a ver. Eu quero as respostas por orgulho.

- Há quanto tempo vocês não se falam?

- Não sei.

- Claro que sabe.

- Uns 3 anos, talvez...

Assim que parei de pensar no assunto porque o calor já havia molhado minha roupa de dormir, desisti de construir as perguntas e respostas para os meus questionamentos. A caneta acabou. Posei-a em cima da mesa da cabeceira, ao lado da luminária colorida. Meus olhos ainda estavam presos ao continuar olhando fixamente para o mosaico colorido do globo de vidro da luminária, me perdendo nos meus pensamentos ao responder as perguntas que eu mesma fazia.

- Eu descobri o que você sente.

- O que?

- Culpa.

- Culpa?

- É, culpa. Você não se perdoa por ter se deixado iludir pela credulidade nos sentimentos de uma pessoa estranha.

Sequei a caneta para descobrir isso. Ainda guardo o hábito de escrever à mão, no meu velho caderno que uso como diário descontínuo.

Tantos anos se passaram..., e ainda escrevo diários...