Está muito calor hoje. O suor desce pela testa, escorrendo pelo pescoço. Busquei a refrescância no banho, na janela aberta e no ventilador ligado... Nada! O calor me sufocando e a tentativa de pensamento parece um esforço sobrehumano para continuar a escrever.
Meu quarto não é muito amplo, mas tem mais mobília do que necessário. Ainda me esbarro nas coisas e olho para o escaninho com os livros organizados e as quinquilharias inúteis que coleciono como as palavras que tento encontrar quando divago o olhar pelos meus livros fechados. Guardo o pieguismo tolo da minha adolescência, que venho me livrando aos poucos, assim como das lembranças que não quero mais ter. Ainda me livro das coisas inúteis definitivamente. Só não me livro dos livros por ter esperanças de ainda encontrar as palavras perdidas. Pensando bem, se elas são perdidas é porque algum dia as tive comigo... Não, nunca as tive de verdade. Escrever pode ser embuste?
Minha cama é antiga e confortável. Foi entalhada à mão, vinda de um tempo onde as mãos de quem a entalhou jamais se preocupou que um dia teria que preservar a natureza. Me privo ao direito de só comprar lençóis de percal cem por cento algodão. Os criados-mudos também são antigos e contrastam com as luminárias coloridas. Meu computador no canto, a televisão e o guarda-roupa isolado como se não fizesse parte da casa, da minha vida. O cabide no canto seria para colocar chapéus, mas tem tanta coisa pendurada que não são raras as vezes que ele tomba para frente de tanto peso. Bolsas, cintos, chapéus, bijuterias, casaco, roupão, máquina fotográfica... Tudo lá.
É aqui que passo meus momentos trabalhando em silêncio. Outras vezes fico olhando para o teto ou pela janela com grades, tentando ver o céu escuro e as luzes piscando ao longe no morro cheio de casas que cerca o meu bairro. Noutras, me levanto para ver entre as barras de ferro as coisas que acontecem na rua. À esquerda o morro, com seus casebres lá no alto, as luzes amarelas brilhando no escuro. Olho para baixo e vejo uma grande escola e quando ergo a cabeça vejo a Pedra dos Dois Olhos que vara o céu, impondo sua majestade fálica e bela. Desde que observei a pedra pela primeira vez, achei-a parecida com uma enorme glande. Ela ali, isolada, magnânima e imponente como um caralho enorme incitando os desejos e absorvendo o calor dos dias.
Procuro elaborar minhas ideias para colocá-las no papel. Não consigo sofisticar meus sentimentos a ponto de elaborar pensamentos filosofados, escritos de maneira difícil ou culta que possa me fazer parecer inteligente. Penso de maneira coesa. Sinto o que sinto. Por exemplo, não saberia dizer outra coisa a respeito da Pedra dos Dois Olhos se não exatamente o dito, o pensado quando a vejo exatamente como a um enorme caralho. Talvez fosse mais poético dizer um enorme falo, um enorme pênis, um pênisão (?). Caralho é caralho, tem força. Assim como dizer buceta. Que mal há em se chamar caralho de caralho e buceta de buceta que até o dicionário do Word grifa de vermelho apontando-o como erro ou palavra descabida? Bu-ce-ta! Ca-ra-lho!
Assim pensei em não romantizar mais as coisas sentidas por outros amores depois que a perdi. Na verdade, sem delongas, nunca a tive. Foi tudo uma ilusão e eu fico batendo na mesma tecla como aquelas mulheres que tinham amantes e iam ao salão da minha tia para se lamentarem pelos seus homens que tinham esposas. Pau é pau, xereca é xereca. Pronto, esse assunto já até me encheu. E eu nem sei o porquê de ficar me delongando nessa patifaria, nesse monte de palavrão. Ah sim, estou escrevendo no meu diário desconexo, descontínuo e infundado. Não tenho que ficar procurando palavras para agradar o leitor.
É como se todos os outros amores que já tive na vida não passassem de redundância, viciosidades, tapa-buracos. Assim como esse monte de palavra que sai desembolada da minha caneta. Eu escrevo a mão antes de digitar no computador. Meu diário não pega vírus. Alguns amores, fiz até questão de desenvolver um sentimento de amor, mas foi passageiro. Meus sentimentos são monogâmicos e por mais que tentasse não seria capaz de me entregar completamente à patifaria que eu tanto queria. E eu adoro patifarias!
Resolvi que era hora de me apaixonar. Tá bom! Isso não se resolve da mesma forma que não posso elaborar meus pensamentos. Se eu os filosofasse da mesma forma quando decidir me apaixonar, posso afirmar que são filosofias de boteco.
Continuando: inútil tentar ter um pouco de solidão e então eu decidi me apaixonar. Era tanta paixão acumulada nas tentativas inúteis que sobrou sentimento sem utilização, ocioso na mediocridade da impossibilidade proposital de não ser capaz de amar de novo.
O tempo passou desde o primeiro capítulo e eu não moro mais perto do mar. Ainda assim, posso imaginar as ondas se quebrando na areia das noites chuvosas as quais passo pensando em mais nada que não sejam as minhas vontades. A diferença é que me tornei obsessiva nos meus pensamentos.
Engraçado, toda vez que escrevo fico imaginando o pensamento dos outros ao ler tudo. Será que esperam alguma coisa dos meus textos?
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