
O Livro da Tormenta
Numa sugestividade dos meus sentimentos, descrevo nos textos para o Livro da Tormenta, o findado amor de um passado distante.
É um título provisório ainda porque não consigo pensar em outro nome senão neste. Esse amor foi tormenta e redenção, assim como minha vida se perde em devaneios nos vagos momentos que tenho os pensamentos livres.
Os textos não são sobre o amor findado apenas. Eu conto minha vida em capítulos porque não dato os relatos nas páginas do meu diário pessoal. Talvez a atemporalidade das minhas palavras me deem a impressão do tempo parado... Talvez...
Eu estou editando meu diário.
Capítulo Um
O relógio da cozinha marcava meio-dia e trinta e quatro e não me lembrava se ele tinha parado à meia-noite e trinta e quatro. Estava deitada no quarto, como se pudesse ver o ponteiro dos segundos se movendo rapidamente, como se isso fosse capaz de fazer o tempo passar mais depressa. E meus olhos se entreabriram.
O celular tocou uma vez. Atendi com a voz mole de sono interrompido que não era profundo a ponto de trazer o descanso tão necessário. Abri as cortinas do quarto com os olhos semicerrados pelo excesso de luz do sol da manhã que entrava pela janela ouvindo a voz do outro lado da linha sussurrando bom dia.
Era como um ritual que me tirava da morte todas as manhãs para começar mais um dia. E quando a noite chegava, o telefone tocava e eu tinha a certeza de poder morrer depois de ouvir boa noite.
Escrevia longas cartas despejando as saudades nas folhas brancas, tingidas por sentimentos que brotavam da caneta, com letras vacilantes, outras vezes firmes e bem desenhadas como o meu amor por ela.
Silêncio das madrugadas insones, ouvindo a chuva batendo no telhado, as ondas do mar se quebrando ao longe ou vozes distantes e incompreensíveis de estranhos que povoavam meus pensamentos. Na vida espartana levada em casa, não tinha o espaço dos luxos para as oportunidades. Então descrevi cada canto comparando com meus sentimentos, minha vida e sentia a riqueza cobrir meus anseios. Sem dúvida, minha vida tinha sentido com ela e para ela sussurrei entre gemidos, a pureza de algo que não sabia existir em mim.
- Crie um diálogo.
- Como? Não há o que dizer.
- Responda aos seus questionamentos primeiro.
- Não saberia.
- Por que ela te deixou?
- Meu amor por ela me adoeceu. Acho. Não. Ela sente amor por outra pessoa e eu não caibo mais nos sentimentos dela.
- Mas você disse que ela te amava.
- Eu quis acreditar no amor dela como salvação para os meus sentimentos perdidos.
- Você criou expectativas.
- Não, o amor quem criou.
- É a mesma coisa. O amor é você.
- Não, eu sou a decepção.
- Ela te enganou?
- De maneira nenhuma.
- Então, o que tanto te magoa?
- Eu ter me enganado, ter querido acreditar que era real. Eu só queria ter a certeza se algum dia ela me amou.
- Como faria isso? Não são certezas que se podem ter.
- Ainda não sei, mas eu preciso descobrir.
- Isso é obsessão.
- Não, é amor desprezado, frustração, credulidade, ingenuidade... Chame como achar melhor.
- Mas se você disse que ela não te enganou...
- Sim, eu disse.
- Então...
- Só preciso saber se foi real.
- Esqueça isso! Já se passou tanto tempo.
- Parece que foi ontem, mas eu mudei tanto...
- Esqueça!
- Não posso!
- O que você precisa saber?
- Eu já disse, preciso descobrir se um dia ela me amou.
- Você ainda a ama?
- ... – Silêncio - ... – Silêncio – Não. Não como antes.
- Mas ainda ama...
- Tá, eu amo, mas o que isso importa agora? Não faz mais diferença porque me curei dela, reaprendi o amor próprio, sufoquei meus sentimentos no meio da dor enorme desde o dia que me perdi dela, que a vi pela última vez.
- Isso faz diferença. Você quer as respostas para se convencer de algo que nunca fez sentido: o amor dela.
- Nada a ver. Eu quero as respostas por orgulho.
- Há quanto tempo vocês não se falam?
- Não sei.
- Claro que sabe.
- Uns 3 anos, talvez...
Assim que parei de pensar no assunto porque o calor já havia molhado minha roupa de dormir, desisti de construir as perguntas e respostas para os meus questionamentos. A caneta acabou. Posei-a em cima da mesa da cabeceira, ao lado da luminária colorida. Meus olhos ainda estavam presos ao continuar olhando fixamente para o mosaico colorido do globo de vidro da luminária, me perdendo nos meus pensamentos ao responder as perguntas que eu mesma fazia.
- Eu descobri o que você sente.
- O que?
- Culpa.
- Culpa?
- É, culpa. Você não se perdoa por ter se deixado iludir pela credulidade nos sentimentos de uma pessoa estranha.
Sequei a caneta para descobrir isso. Ainda guardo o hábito de escrever à mão, no meu velho caderno que uso como diário descontínuo.
Tantos anos se passaram..., e ainda escrevo diários...
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